ADERBAL FREIRE FILHO


ORFEU

Razões, critérios...


Concebi esta “dramaturgia” com o propósito específico de uma montagem hoje

(2010) desse extraordinário “poema em forma de teatro”, como o definiu

Vinicius de Morais na apresentação de outra peça sua.

Uma encenação é sempre re-criadora da dramaturgia original, na escolha das

ênfases dadas às cenas, na criação dos signos próprios do palco, na

descoberta e exploração de espaços teatrais além da figuração do espaço real,

etc. Orfeu da Conceição está descrito fartamente em indicações do autor, que

muitas vezes pretendem compensar a ausência de cenas dialogadas e de

ações. Assim, sendo um extraordinário poema, dramaticamente se constrói,

muitas vezes, por elipses e por sugestões.

Antecipando-me a dramaturgia cênica que pretendo desenvolver durante os

ensaios, achei que tornaria o texto original mais visível, suas qualidades mais

destacadas – objetivo de todas as encenações – construindo uma

“dramaturgia” que já literariamente fosse o alicerce da peça. Segui alguns

critérios, que aponto aqui.

Ao contrário de um roteiro de cinema adaptado, que desenvolve as cenas de

uma peça de teatro (ou de um romance, um conto), criando novos

personagens, novas situações, novas ações, diálogos novos dentro do próprio

universo das ações e personagens originais, pretendi aqui interferir

minimamente nesse núcleo original da história. Vinicius destaca a natureza

clássica de seu texto e pretendi preservar essa natureza. Toda a dramaturgia

foi criada aqui em torno da história central, nas suas margens, como moldura

para a peça.

Assim, a peça continua com seu mesmo registro clássico, trágico, poético, mas

o espetáculo ganha outros registros, outros tons. E ao desenvolver nessa

dramaturgia, por exemplo, o humor, espero estar criando variantes que

reforçam ainda mais cada volta ao tom dominante da peça.

O principal recurso que utilizei foi incluir a presença em cena do Poeta, que

pode ser visto ao mesmo tempo como Vinicius, mas, mais amplamente, como o

Poeta (ideal, eterno), a Poesia, o criador de todas as histórias, poemas,

mitologias. E, levado por uma referência de Vinicius a um grupo de amigos, em

uma crônica sua sobre cinema, imaginei um Coro de Amigos, cada um com o

prenome dos amigos da citada crônica (numa única ocasião, um deles diz seu

sobrenome).

Mesmo esse recurso não quebra a estrutura da peça, pois com o Poeta e seus

Amigos apenas me detenho no coro que já existe, personalizando seus

integrantes e fazendo do Poeta, o Corifeu.

Sabemos que o morro, lugar onde se passa a história de Orfeu, não é mais

como era na época em que Vinicius escreveu a peça. Não tive a intenção de

fazer uma atualização, colocar a violência dos morros atuais como cenário que

modificasse a estrutura da peça. O que fiz foi um pequeno jogo de cruzar os

dois tempos, incluir personagens de hoje que passassem fora da história e,

convidados pelo autor, representassem personagens da peça. Uma espécie de

meta-teatro, enfim, é o que mais caracteriza esta “dramaturgia”.

Tentei, o mais possível, usar nessa dramaturgia palavras do próprio Vinicius,

poemas seus sobretudo, que mesmo tendo sido escritos em outros contextos

se ajustassem aos contextos das cenas onde foram usados. E quando escrevi

diálogos, fiquei no território do meta-teatro, a peça dentro da peça, ou melhor a

peça fora da peça. São diálogos que servem de apresentação, onde só a

dramaturgia cênica não faria com eficiência esse papel. Em outros momentos,

eles cumprem a função de desenvolver cenas que na peça estão apenas

descritas, como a cena entre Orfeu e Cérbero, o cão de guarda do inferno, por

exemplo.

Dividi o primeiro ato em cinco Movimentos, sem que isso signifique qualquer

interrupção, apenas para efeito de estudo junto aos atores.

As próprias extensões originais reduzidas do segundo e terceiro atos, revelam

que as ações dramáticas requeriam desenvolvimento. E foi isso que quis fazer,

sem ferir a grandeza poética da peça, antes pretendendo, como já disse,

destacá-la.

Aderbal


(Festa de entrega da Ordem do Mérito Cultural 2009, no Teatro OI Casa Grande, dia 25 de novembro, proferido em nome dos 49 artistas que receberam a Ordem)


Excelentíssimo senhor Presidente da República, excelentíssimo senhor Ministro da Cultura, Excelentíssimo Senhor Governador do Estado do Rio, Exmo. Sr. Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, demais autoridades, meus companheiros de “ordem” (e de desordem), senhoras, senhores. Excelentíssima Atriz Fernanda Montenegro, Excelentíssimo Ator Sérgio Mamberti.


A última vez que pisei nesse palco foi trabalhando. Quero dizer que estou em casa. Posso, então, agregar mais um valor a essa honraria que recebo sem muito merecimento. No meu caso é como se um médico estivesse sendo premiado dentro do seu hospital, um professor na sua sala de aula, um operário na sua fábrica. Tem um porém. A última vez que pisei aqui, aqui era a Dinamarca, terra do príncipe Hamlet. Embora o príncipe fosse, naquele momento, um dinamarquês nascido na Bahia, aqui era a Dinamarca. Um palco de teatro é uma porta para o mundo, para outros países e outros tempos ou para outras visões do nosso tempo e do nosso país. É uma porta para a fantasia e para o pensamento. Mas, hoje, olho para os atores – e vou tratá-los como eram tratados antigamente atores e atrizes, com o respeito de acrescentar-lhes aos nomes “o senhor”, “a senhora” – e vejo o sr. Luis Inácio Lula da Silva, no papel de Presidente da República, o sr. Juca Ferreira, no papel de Ministro da Cultura, e não tenho dúvidas. Aqui é o Brasil, bem representado. Apesar de ter passado mais de cinqüenta anos em palcos como esse, em dezenas de teatros, desde quando tinha treze anos incompletos, e por isso ser difícil ver aqui outra realidade que não seja a dessa mistura de verdade e ficção que esse lugar resume, mesmo com esse olhar sei que estou no Brasil de verdade. Doce Brasil, grande Brasil, Brasil cheio de glórias e de misérias. E cada um de nós que aqui está, os que concedem essa ordem e os que recebem, certamente se empenham na luta de cada dia para construir um Brasil e um mundo melhor para todos. Nós os “ordenados”, nós cantamos, dançamos, fazemos teatro, cinema, escrevemos, tocamos, esculpimos, promovemos cultura, etc.

Como é tanta a diversidade da cultura, mesmo contando com a redução que fala da cultura que está representada pelo Ministério da Cultura, e fora das questões do ministério de cultura da Fazenda, do ministério de cultura da Saúde, etc, queria encontrar aqui um denominador comum para nós todos, já que estou aqui em nome de todos. E penso que a melhor palavra para nos denominar, é: poetas. Nós somos todos poetas. O poeta Chico Anísio, que tornou muito melhor minha vida com a poesia dos seus personagens, a poeta Nathalia Timberg, enchendo os palcos de poesia, todos os poetas que represento aqui, também imerecidamente. Tomo emprestadas palavras de um desses poetas, Mia Couto, no diálogo que mantêm o médico Sidonio e seu cliente Bartolomeu Sozinho, no romance Venenos de Deus, remédios do diabo. Bartolomeu conta um sonho ao doutor e ele pergunta: “Chovia no sonho? – Oh, doutor, o senhor sofre mesmo de poesias; então chove nos sonhos? – Acha que isso é poesia? – Então não é?”

Com a faca da poesia, expressão ainda do personagem de Mia Couto, enfrentamos o mundo, queremos cortar a miséria, as dores, as injustiças. Com a poesia entendemos as complexidades, as contradições da arte da política e entendemos a humanidade dos bem intencionados. Às vezes um personagem, Fausto, nos diz dos tratos com o diabo. Às vezes um poema de Bandeira, nos mostra que na cidade não existe mais a pureza . E ainda nos valemos da capacidade de percepção da poesia para enxergar o mundo e ver melhor suas mudanças. O filósofo romeno Cioran explica que prefere expor sua filosofia em aforismos para poder ser contraditório. Que a contradição é inevitável e que uma tese desenvolvida em longos discursos, seguindo uma lógica rígida, não dá lugar às contradições e elas são o mundo e o pensamento em movimento.  Quando esse governo do Brasil distribui ordens do mérito a trabalhadores da cultura, confirma a importância que dá a esse poderoso instrumento de transformação, a cultura, e a importância que dá ao homem e por conseqüência que dá ao progresso verdadeiro, humano. Já está bom? Ainda não. Se posso pedir alguma coisa daqui, de tão perto de quem manda, é mais cultura, mais Manuel Bandeira, mais Patativa do Assaré, mais condições para que eles apareçam. Termino citando e ao mesmo tempo parodiando, ou ajustando um pouco, um trecho de outro romance, esse do escritor chileno Roberto Bolaño, quando um de seus personagens tem um sonho em que lhe aparece quem ele chama de último filósofo comunista: “Escuta minhas palavras com atenção, camarada. Vou te explicar. A vida é procura e oferta, ou oferta e procura, tudo se limita a isso, mas assim não se pode viver. É preciso uma terceira perna para que a mesa não caia nos montes de lixo da história, que por sua vez está caindo no lixo do vazio. Então toma nota. Esta é a equação: oferta + procura + magia.” Eu, ajustando: mais poesia, mais poesia para construir, mais poesia para mudar, mais poesia para compreender um processo de mudança nos dias de hoje, mais poesia para a felicidade.

Sei que representar a muitos é quase impossível, ser a voz de todos, impossível. Então termino com as duas únicas palavras que, acho, estou credenciado a dizer por todos os homenageados: muito obrigado.